domingo, 3 de abril de 2011

#1

A coisa mais afortunada que Me aconteceu essa noite foi descobrir que ainda Me restava um cigarro dentro da carteira. Nem o jazz Me trouxe de volta depois do silêncio, os segundos no relógio batem mais forte. Eu não queria que o filme tivesse acabado, mas o que Eu podia fazer? Tinha que acabar uma hora. Por quê? Por que tudo isso? Como se isso importasse. O fato é que é, e está acontecendo neste exato momento. O fato é que Eu não tenho escolha. "Você vai andar por aí amanhã sabia, João?" Nem sei se quero mais. "Mas você estava tão ansioso!" A unica ansiedade que Me resta agora é a faixa no. 10. Oh, Meu deus, que está acontecendo Comigo? Falta pouco. Tão incerto, tão confuso. Uma pessoa que não consegue nem suportar a própria raiva! Como Eu apreciaria um piscar de indiferença. Ela bem que podia Me emprestar um pouco de amor-próprio, alguns amigos. Afinal, o que é bom e ruim, o que é certo e errado? Felicidade é uma noção chula. Indulgência ridícula essa Minha. Ridícula! Um Anador, por favor:

Muitas perguntas e poucas respostas.
Muitas perguntas e poucas respostas.
Muitas perguntas e poucas respostas.
Muitas perguntas e poucas respostas.
Muitas perguntas e poucas respostas.
Muitas perguntas e poucas respostas...

Ah, que Eu possa sorrir amanhã! Que o domingo amorne o calor e Me permita um suéter! Entre cinco, cinco e meia da tarde. No ônibus. Na ponte. Na janela. Na avenida Sou tão patético! Queria uma pílula de qualquer coisa, mas aqui eles escondem os remédios. Não se preocupe, só Estou gripado.
Lá se vai o último cigarro e aí vem a faixa no. 10.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

PA-NDA!

Novamente, não há nada que possa ser dito. Nada que possa ser feito, nada que possa ser discutido, debatido, questionado, contestado... Ou as coisas são ou não são, não existe meio termo. E esta é, vai ser — dizendo você. Egoísmo? Há muito na minha voz do que você ainda não é capaz de escutar, meu amor. E por isso, eu anseio. É disso que estamos falando. Ansiedade!

As entrelinhas eu deixo pra você.
Um beijo paciente.
PA-NDA!

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Monumento


Quatro meses e venho te esmiuçando. As primeiras imagens que tive de ti... Encostada em um balcão de lanchonete, em uma rodoviária onde agora assumes formas mil. Te encontrei e reencontrei tantas vezes, sempre nos mesmos lugares. Agora uma névoa cinza encrustou na tua face. Te vejo cinza e marrom, um monumento só meu, que defendo vorazmente à machadadas. Mas és grande demais, aqui e ali te roubam pedaços. Sei que és resistente, sólida... Mas que mal faria se tomasses vida? Se pudéssemos, os dois, lutar lado à lado contra os ladrões de rochas?

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Evidently Chickentown

the fucking cops are fucking keen
to fucking keep it fucking clean
the fucking chief’s a fucking swine
who fucking draws a fucking line
at fucking fun and fucking games
the fucking kids he fucking blames
are nowhere to be fucking found
anywhere in chicken town
the fucking scene is fucking sad
the fucking news is fucking bad
the fucking weed is fucking turf
the fucking speed is fucking surf
the fucking folks are fucking daft
don’t make me fucking laugh
it fucking hurts to look around
everywhere in chicken town
the fucking train is fucking late
you fucking wait you fucking wait
you’re fucking lost and fucking found
stuck in fucking chicken town
the fucking view is fucking vile
for fucking miles and fucking miles
the fucking babies fucking cry
the fucking flowers fucking die
the fucking food is fucking muck
the fucking drains are fucking fucked
the colour scheme is fucking brown
everywhere in chicken town
the fucking pubs are fucking dull
the fucking clubs are fucking full
of fucking girls and fucking guys
with fucking murder in their eyes
a fucking bloke is fucking stabbed
waiting for a fucking cab
you fucking stay at fucking home
the fucking neighbors fucking moan
keep the fucking racket down
this is fucking chicken town
the fucking train is fucking late
you fucking wait you fucking wait
you’re fucking lost and fucking found
stuck in fucking chicken town
the fucking pies are fucking old
the fucking chips are fucking cold
the fucking beer is fucking flat
the fucking flats have fucking rats
the fucking clocks are fucking wrong
the fucking days are fucking long
it fucking gets you fucking down

by John Cooper Clarke

sábado, 12 de junho de 2010

Rascunhos Pt.1

#1

Não há nada neste curso ao qual chamamos de vida que não esteja sujeito à críticas e à discussão de qualquer indivíduo. Assim como tudo que vemos, nossas idéias e pensamentos sempre possuem mais de um lado, mais de uma face, ou melhor, mais de duas. Por exemplo: minha querida mãe crê que ir para a igreja todos os domingos e se ajoelhar em uma tábua de madeira — que por sinal, deve ser a causa das dores de coluna dela — vai me fazer ficar nesta província desértica e desistir de ir morar para Belém. Eu, por outro lado, acho que à todos aqueles que exercem o ardiloso ato de ir à igreja, deveriam ser oferecidas — como presentes de Deus, é claro — camas ortopédicas.

#2

Passaram-se duas horas desde que escrevi o pequeno texto acima. Até então eu estava conversando com pessoas e enfiando pontas de cigarro no cinzeiro, mas acabei esbarrando com um velho e conhecido inimigo — ó, quem será? — Sim, eu vos digo: o tédio. Não era de se admirar. Me lembrei que tinha achado o DVD com parte das músicas que existiam no meu computador e lembrei também que tinha a discografia completa do Autechre no DVD. Se existem duas bandas — “grupos” seria mais adequado — que conseguem me fazer sentir como um megazord no metrô, logo nos primeiros segundos de música, estão são Kraftwerk e Auchtere. Talvez isso dê pelo fato de que todos os dois grupos fazem — ou fizeram — música eletrônica e por serem as únicas que eu conheço do gênero. Mas do que adianta falar do que não se sabe?

#3


Escrever ainda continua sendo uma tarefa complicada para mim. Muitas vezes, me sinto como os Power
Rangers, que quando acertados com tiros ou cortados com espadas, voavam a quilômetros de distância e não caiam no chão sem antes dar inúmeros mortais no ar para só então sentir dores em lugares onde eles nem mesmo tinham sido feridos. No meu caso, o processo de escrever é bem parecido — certo, nem tanto. — Geralmente, eu sento para escrever e após alguns minutos a idéia vem à minha cabeça, como as faíscas que saem de buracos invisíveis no corpo dos guerreiros coloridos. Mas no decorrer do ato, dou cambalhotas sem sentido, desvio de falsas armadilhas e esquivo de coisas inexistentes, atuando repugnantemente. E quando chego ao chão e coloco o último ponto, vejo coisas serem onde não são e enxergo problemas onde não há algum. Por fim, acho tudo uma merda. Amasso — deleto — o papel — o arquivo — e rebolo em algum canto do quarto — das profundezas do meu HD. Uma sombra de perfeccionismo? A velha autocrítica? Pura chatice? São quatro da manhã e sinceramente, tanto faz.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

1... AM

O primeiro convidado me fez rir descontroladamente. Tinha algo a ver com um contador, ele o havia enganado, roubado o seu dinheiro. Ele não podia realmente matá-lo, então matou-o na página 347 do seu livro, que estava à divulgar.

Realmente fugiu para o paraguai. Teve que distribuir dinheiro pelo caminho para atravessar a fronteira. Observou o funcionamento do contrabando e como as mercadorias passavam de um país para o outro sem o acréscimo de impostos sobre o seu valor. Fez piadas com as gírias (em espanhol) que ouvia pelo caminho. Falou de uma bunda. Leu alguns trechos do livro que escrevera para auxiliar suas explicações e mencinou este fato. Ri, do começo ao fim.

O segundo convidado era um ator. Também foi para divulgar... divulgar a peça na qual estava atuando até aquele momento. Chamava-se "Após a Chuva". A peça, não o ator...

Interessante que a única parte em que dei algumas poucas risadas, foi quando o ator demonstrou o quanto havia apreciado a história contada pelo convidado anterior. No resto do tempo, fixei minha cabeça ao solo, e lá fiquei, apenas com o áudio. Ele era simpático demais. Entediei-me. Ele tinha algo com o chapéu. Cheguei tarde demais para entender.

Algo incomum (pelo menos para mim) aconteceu.

O programa havia começado com uma violonista e terminou com uma banda de pop rock cujas letras transmitiam lindas mensagens cristãs de esperança, amor e compaixão, evocando, é claro, o nome de nosso senhor todo poderoso. Já não estava lá. Encontrava-me no quarto, aproveitando-me da absurdamente alta taxa de download, a qual era atualizada pelo software do meu modem, de segundo em segundo, chegando a um máximo de 2.12 Mbps.

O que acontece depois não interessa, não fazia mais parte daquela uma hora.

Minha cabeça à minha altura, subtraída do comprimento de minha perna esquerda, que acontece de ser o mesmo da perna direita; Minha cabeça fixada ao solo, enquanto ouvia os esporádicos sons dos ônibus que passavam na avenida, a alguns metros de distância da cozinha onde me encontrava; Minha cabeça onde devia estar, um metro e sessenta, um metro e sessenta e cinco, realmente, não me lembro. Uma hora, uma cabeça, três alturas.

Aplausos para o primeiro convidado.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Pela Janela

É uma sensação muito interessante a de observar as pessoas através da janela do carro. Eu me lembro uma vez estar escutando A Punchup at a Wedding, sentado no banco da frente, e de repente ter percebido isso: todas aquelas pessoas ali, andando de um lado para o outro, passando despercebidas umas pelas outras, como se cada uma delas fossem um monte de obstáculos ambulantes, egoístas, egocêntricas, egofanáticas, preocupadas com seus problemas individuais, compromissos marcados, planos futuros, ou quem sabe, distraindo suas mentes com coisas pequenas, uma lembrança antiga, o abraço que deu na amiga pela manhã, os estudantes que viu conversando na frente da escola, o morador de rua que lhe pediu alguns trocados, a cor da blusa de uma menina que viu rapidamente, a música de fundo em uma propaganda de televisão, uma idéia, uma pequena linha de pensamento, uma frase, uma simples palavra pela qual imagina o significado. Todos esses fragmentos, pedaços de vida circulando anonimamente pelas calçadas e ruas, nunca interferindo uns com os outros, e como poderiam? É então que dentro desta infinita gama de reflexões, perdido entre a fumaça das chaminés, você acidentalmente se faz uma pergunta: "Quem sou eu?". E logo em seguida, outra: "Se eles são obstáculos, o que eu sou?". Rapidamente, uma série de perguntas derivadas começam a surgir como figuras geométricas na sua cabeça, uma levando a outra, multiplicando-se cada vez mais e mais, deixando as que ficaram para trás sem resposta, contentando-se apenas em absorver mais e mais dúvidas, cada vez mais específicas, cada vez menores, até que em um certo ponto, elas já estão tão pequenas quanto ordinárias e ao invés de lhe proporcionarem curiosidade, elas começam a lhe afastar da idéia geral, da primeira dúvida que teve bem no começo do efeito dominó. Você decide parar, cessa com todos os pensamentos, exceto com o primeiro: "Quem sou eu?". Você repete, quatro, cinco vezes, "Quem sou eu?", focando-se apenas nesta pergunta, mas ao ao olhar mais uma vez pela janela, um leve ar de superioridade lhe vem à cabeça. Você percebe que não está lá, você está por trás da janela películada, os observando realizar suas atividades medíocres, com suas conversas preconceituosas e mesquinhas, sempre procurando por novidades, sempre procurando por mais problemas para dos quais poder passar o dia reclamando. Essa sensação de ausência lhe engrandece, aos poucos você solta leves risos, imaginando que tipo de medíocridades estão a passar pela mente daqueles bonecos, obstáculos ambulantes, sente-se intocável, inflexível, invencível. E é quando que distraído com suas próprias risadas, você percebe que o carro parou e você tem que descer, descer e fazer aquilo, caminhar entre eles e seus pensamentos, levando consigo os seus. Tem que descer e abraçar a amiga da sua tia, passar pelo bêbado dormindo no meio da calçada, entrar no supermercado e ver aqueles anúncios multicoloridos, ouvir os estudantes conversando na parada de ônibus, uma frase na parede que lhe dá uma idéia, uma vontade de correr pra casa e escrever tudo que está pensando, escrever e deixar os pensamentos escorragarem uns sobre os outros, seria estimulante, seria... Alguém buzina! A avenida, cheia de carros com seus vidros películados e adolescentes sentados no banco do passageiro, quem sabe, imaginando sobre o que você está fazendo ali, olhando para aquela parede. "Quem sou eu?", uma vez basta: egoísta, egocêntrico, egofanático.