sexta-feira, 30 de abril de 2010

Pela Janela

É uma sensação muito interessante a de observar as pessoas através da janela do carro. Eu me lembro uma vez estar escutando A Punchup at a Wedding, sentado no banco da frente, e de repente ter percebido isso: todas aquelas pessoas ali, andando de um lado para o outro, passando despercebidas umas pelas outras, como se cada uma delas fossem um monte de obstáculos ambulantes, egoístas, egocêntricas, egofanáticas, preocupadas com seus problemas individuais, compromissos marcados, planos futuros, ou quem sabe, distraindo suas mentes com coisas pequenas, uma lembrança antiga, o abraço que deu na amiga pela manhã, os estudantes que viu conversando na frente da escola, o morador de rua que lhe pediu alguns trocados, a cor da blusa de uma menina que viu rapidamente, a música de fundo em uma propaganda de televisão, uma idéia, uma pequena linha de pensamento, uma frase, uma simples palavra pela qual imagina o significado. Todos esses fragmentos, pedaços de vida circulando anonimamente pelas calçadas e ruas, nunca interferindo uns com os outros, e como poderiam? É então que dentro desta infinita gama de reflexões, perdido entre a fumaça das chaminés, você acidentalmente se faz uma pergunta: "Quem sou eu?". E logo em seguida, outra: "Se eles são obstáculos, o que eu sou?". Rapidamente, uma série de perguntas derivadas começam a surgir como figuras geométricas na sua cabeça, uma levando a outra, multiplicando-se cada vez mais e mais, deixando as que ficaram para trás sem resposta, contentando-se apenas em absorver mais e mais dúvidas, cada vez mais específicas, cada vez menores, até que em um certo ponto, elas já estão tão pequenas quanto ordinárias e ao invés de lhe proporcionarem curiosidade, elas começam a lhe afastar da idéia geral, da primeira dúvida que teve bem no começo do efeito dominó. Você decide parar, cessa com todos os pensamentos, exceto com o primeiro: "Quem sou eu?". Você repete, quatro, cinco vezes, "Quem sou eu?", focando-se apenas nesta pergunta, mas ao ao olhar mais uma vez pela janela, um leve ar de superioridade lhe vem à cabeça. Você percebe que não está lá, você está por trás da janela películada, os observando realizar suas atividades medíocres, com suas conversas preconceituosas e mesquinhas, sempre procurando por novidades, sempre procurando por mais problemas para dos quais poder passar o dia reclamando. Essa sensação de ausência lhe engrandece, aos poucos você solta leves risos, imaginando que tipo de medíocridades estão a passar pela mente daqueles bonecos, obstáculos ambulantes, sente-se intocável, inflexível, invencível. E é quando que distraído com suas próprias risadas, você percebe que o carro parou e você tem que descer, descer e fazer aquilo, caminhar entre eles e seus pensamentos, levando consigo os seus. Tem que descer e abraçar a amiga da sua tia, passar pelo bêbado dormindo no meio da calçada, entrar no supermercado e ver aqueles anúncios multicoloridos, ouvir os estudantes conversando na parada de ônibus, uma frase na parede que lhe dá uma idéia, uma vontade de correr pra casa e escrever tudo que está pensando, escrever e deixar os pensamentos escorragarem uns sobre os outros, seria estimulante, seria... Alguém buzina! A avenida, cheia de carros com seus vidros películados e adolescentes sentados no banco do passageiro, quem sabe, imaginando sobre o que você está fazendo ali, olhando para aquela parede. "Quem sou eu?", uma vez basta: egoísta, egocêntrico, egofanático.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

"Seja o que quiser ser, mas seja"

Eu menti.

Nunca comprei nada da Polishop; Nunca assisti Skins; Invandi a casa do Edgar porque eu estava entediado; Nunca tive a tal overdose de Coca-Cola ;Desde que nasci, li poucos livros dos quais me recordo apenas do Código da Vinci e O Colecionador de Borboletas, este último sendo o melhor livro que já li; Eu leio pouco porque sou preguiçoso; Eu escrevo pouco porque sou preguiçoso;
Não sou inteligente; Certas coisas que eu digo são passagens de séries ou filmes ou, mais raramente, livros; Meus raciocínios são geralmente instantâneos, e muito das vezes, meros sofismas; Constantemente, na presença de outros indivíduos, construo personalidades apropriadas para com o momento, na tentativa de fazer certa diferença no diálogo ou na interação entre eles; Não fechei matemática no PSIU, vi uma menina aparentemente bonita sentada à minha frente e assim que ela saiu, tratei de marcar 'B' em todas as questões de história e geografia para segui-la (infelizmente, não a encontrei); Das únicas provas mensais que cheguei a fazer no Sinopse, tirei 9,5 na prova de Química I (radioatividade), 7,0 na de Química II (soluções) e 6,0 ou 6,5 na de Gramática (verbo). Matemática, às vezes, é um saco; Física, às vezes, é um saco; Química, na maioria das vezes, é um saco; Não resolvi todas as questões de estequiometria do livro, como disse que resolvi no primeiro ano (os testes me davam sono); O segundo ano mostrou o porquê do primeiro ter sido bom, em termos de notas; Nunca fui inteligente e, provavelmente, nunca serei.
Nunca amei ninguém, não sei o que é isso, mas quando estiver caquético, provavelmente darei um sublime significado a esta palavra; Carol, Yasmin, Izabelle, Jôsy, Lorena, Isabella, Pâmella, Anna, Palloma e Bárbara foram dependências químicas; Dani, ninguém queria me bater, eu só queria te beijar mesmo; Acho que choraria se meus pais morressem, mas "quem vai me dar comida" e "quem vai financiar meus cigarros" seriam com certeza, uma preocupação maior do que a morte deles; Nunca tentei me matar; O máximo que eu já fiz foi cortar a mão com uns cacos de vidro e tomar algumas pílulas de benflogin; Tive uma experiência homosexual lá pelos 12 ou 13 anos (Pedro Ângelo vai me bloquear); Já furtei amigos, tias de amigos e parentes; Sempre gostei mais das coisas do que das pessoas; Sempre gostei mais de mim do que dos outros; Sempre gostei de mim.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Mudança

Eu perdi a conta de quantas vezes eu já me prometi uma mudança. É tão fácil não é? Sentar-se na cama após um dia cheio de coisas ordinárias e de meninas ridículas com suas neuroses (no sentido psicológico da palavra) que perguntam pra você de quinze em quinze minutos o que diabos você tem, e simplesmente dizer "a partir de hoje eu serei outra pessoa". Simples, fácil, e assim se daria a própria mudança se não fosse pelo tédio, pelos amigos, pelos convites, pelas sentenças ambíguas que fazem você querer soltar tudo que há incrustado nas regiões mais profundas do seu cérebro. Dias depois você já se encontra exausto de tanto imaginar o que está acontecendo lá fora, o som dos carros passando lhe deixando maluco, amigos do colégio vem e lhe contam sobre como foi engraçado o que tal pessoa disse na sala de aula, e como todos riram e riram da cara que a professora fez. Seria bom se eu conseguisse me trancar no quarto por meses, com a comida sendo passada pela janela, lendo livros e mais livros, escrevendo sobre filmes e vendo filmes que me fizessem escrever, seria ótimo! Talvez assim eu aprendesse a falar menos, só o necessário pra me comunicar, e não precisasse ficar com raiva por ter dito coisas que eu não queria ter dito, ou por ter demorado muito pra bater a merda da porta e ir embora. Mas ao contrário do falar, fazer é muito difícil (ainda mais pra quem é exageradamente preguiçoso, como eu).
Você tem que ter coragem, força de vontade, ignorar conceitos e aceitar outros, tem que crescer, ou melhor, amadurecer, como dizem por aí, mas isso tudo é muito chato! Eu não sei, talvez se eu tivesse amigo(s) de verdade (no meu conceito do termo), que me instigassem a continuar, não só dizendo coisas como "tu que sabe", ou "se tu acha que isso vai ser bom pra ti, vá em frente", mas que tivessem uma opinião sobre o assunto, de modo que conseguissem me convencer, que conseguissem realmente chamar minha atenção, talvez então eu conseguisse "ir em frente". Mas talvez, eu seja apenas um idiota, um hipócrita, jogando a responsabilidade pelo sucesso de meus objetivos para os outros, o que na minha opinião é muito mais provável. De qualquer maneira, fácil ou não, prometo pela milionésima vez que vou mudar, pode ser que eu consiga, pode ser que não, mas desta vez aplicarei um esforço muito maior.