É uma sensação muito interessante a de observar as pessoas através da janela do carro. Eu me lembro uma vez estar escutando A Punchup at a Wedding, sentado no banco da frente, e de repente ter percebido isso: todas aquelas pessoas ali, andando de um lado para o outro, passando despercebidas umas pelas outras, como se cada uma delas fossem um monte de obstáculos ambulantes, egoístas, egocêntricas, egofanáticas, preocupadas com seus problemas individuais, compromissos marcados, planos futuros, ou quem sabe, distraindo suas mentes com coisas pequenas, uma lembrança antiga, o abraço que deu na amiga pela manhã, os estudantes que viu conversando na frente da escola, o morador de rua que lhe pediu alguns trocados, a cor da blusa de uma menina que viu rapidamente, a música de fundo em uma propaganda de televisão, uma idéia, uma pequena linha de pensamento, uma frase, uma simples palavra pela qual imagina o significado. Todos esses fragmentos, pedaços de vida circulando anonimamente pelas calçadas e ruas, nunca interferindo uns com os outros, e como poderiam? É então que dentro desta infinita gama de reflexões, perdido entre a fumaça das chaminés, você acidentalmente se faz uma pergunta: "Quem sou eu?". E logo em seguida, outra: "Se eles são obstáculos, o que eu sou?". Rapidamente, uma série de perguntas derivadas começam a surgir como figuras geométricas na sua cabeça, uma levando a outra, multiplicando-se cada vez mais e mais, deixando as que ficaram para trás sem resposta, contentando-se apenas em absorver mais e mais dúvidas, cada vez mais específicas, cada vez menores, até que em um certo ponto, elas já estão tão pequenas quanto ordinárias e ao invés de lhe proporcionarem curiosidade, elas começam a lhe afastar da idéia geral, da primeira dúvida que teve bem no começo do efeito dominó. Você decide parar, cessa com todos os pensamentos, exceto com o primeiro: "Quem sou eu?". Você repete, quatro, cinco vezes, "Quem sou eu?", focando-se apenas nesta pergunta, mas ao ao olhar mais uma vez pela janela, um leve ar de superioridade lhe vem à cabeça. Você percebe que não está lá, você está por trás da janela películada, os observando realizar suas atividades medíocres, com suas conversas preconceituosas e mesquinhas, sempre procurando por novidades, sempre procurando por mais problemas para dos quais poder passar o dia reclamando. Essa sensação de ausência lhe engrandece, aos poucos você solta leves risos, imaginando que tipo de medíocridades estão a passar pela mente daqueles bonecos, obstáculos ambulantes, sente-se intocável, inflexível, invencível. E é quando que distraído com suas próprias risadas, você percebe que o carro parou e você tem que descer, descer e fazer aquilo, caminhar entre eles e seus pensamentos, levando consigo os seus. Tem que descer e abraçar a amiga da sua tia, passar pelo bêbado dormindo no meio da calçada, entrar no supermercado e ver aqueles anúncios multicoloridos, ouvir os estudantes conversando na parada de ônibus, uma frase na parede que lhe dá uma idéia, uma vontade de correr pra casa e escrever tudo que está pensando, escrever e deixar os pensamentos escorragarem uns sobre os outros, seria estimulante, seria... Alguém buzina! A avenida, cheia de carros com seus vidros películados e adolescentes sentados no banco do passageiro, quem sabe, imaginando sobre o que você está fazendo ali, olhando para aquela parede. "Quem sou eu?", uma vez basta: egoísta, egocêntrico, egofanático.
sexta-feira, 30 de abril de 2010
Pela Janela
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário